O linho em São Torcato - Guimarães 1913


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Sendo a industria de tecidos de linho a mais prospera e a mais notável de toda a zona sul da província do Minho, o ocupando-se  o serviço de enumeras fabricas d’esse género industrial algumas dezenas de milhares de pessoas, nem por isso a antiquíssima cultura « dos linhos da terra » minhota- ainda fácil de propensão para mais este pitoresco cuidado agrícola- deixa de ser um uso seguido e, diremos, da exclusiva preferência domestica dos camponeses.

A semente do linho aldeão do povo do Minho lança-se as terras húmidas e baixas pelos meados do mês de março.

Junho entra, depois. E já um braza, nas terras o sol canicular do verão. Se os linhos tivessem de demorar-se sobre os seus efeitos ardentes, certamente que não resistiriam. Mas não. Pelo São Torcato, em geral, já o povo madruga e se encaminha para os campos embebedados de flor azul, a “arrincar”, como ele diz, nas suas novas linhagens.

 

Levado aos molhos para as eiras, vemos agora que se vai “limpar” o linho- o que quer dizer que vai ser batido, sob as mangais, tanto ou quanto seja necessário para lhe tirar por completo a flor e semente que já secou.

Segue-se depois o “enterramento” em tanques ou poças ou rios, onde o linho mergulha e descansa oito dias, sob tábuas compridas ou pesadíssimas.

Voltando do rio, já lavado e escorreito de semente, vai ver o sol, de novo. Mãos carinhosas e espalham pelos campos, que estão devoluto, e pelos montes cheio de mato arnal. Demora ali um mês? O tempo d’essa “etape” do fabrico rústico é indeterminado. Mas passado o prazo de um mês o linho esta limpo; e o lavrador, figura social entregue grandemente as tradições, refrega-o logo, como os antigos usavam, uma “malhada” violenta, de turba batendo desapiedadamente, para que emfim o engenho receba meio delido o linho piteiro que vai engenhar.

 

Ali onde o “engenheiro” (sic) e o dono do linho introduzem constantemente molhos ásperos de linhagem, uma junta de bois puxa lenta e serenamente horas, horas consecutivas, n’aquela nora de grande roda em cabos; e uma velhota ao lado, d’essas que tem na alma o segredo destes rigorosos e carinhosos usos caseiros, vai ditando sentenças, gritando cuidado, acamando despojos.

 

E essa mesma velha se encarrega, depois, de escolher ou separar. UM dia, enfim, d’esse linho de que homens e mulheres, até então, trataram, principia a mulher, exclusivamente a tratar. Ela o toma do engenho e o leva, com certa familiaridade rude, ao alpendre do eido. Em certa manha, alegre e em canções pela estrada, a ranchada aproxima-se. Sobem a escada de pedra do alpendre. E ali, sentadas e cuspindo na palma da mão, as moças de lábios e lenços alegres desatam a “espadar”, a “assedar”, e, definitivamente, a “escolher”, pois que do linho lançado em sementes por esse três qualidades de linhagem se obteem :

1)      O linho, que é aplicado em camisas e toalhas;

2)      a estopa, que serve para os lençóis;

3)      os tormentos, de que se faz os panos de doença e mesmo as camisas dos criados da lavoura- os quais, ao envergal-os pela primeira vez, sentem a impressão de ter a roda do corpo...

4)      Uma “coroa de espinhos”. Mas depois de “espadar” e “assedar”, e antes que se promova a obra de costureira a que agora nos vimos referindo, é preciso ver que este como qualquer outro linho, precisa de ser “fiado”, “dobado” e submetido as barrelas de cinza virgem, de onde depois sai linho facilmente adaptável, como urdidura, ao “orgao” do nosso belo e quase primitivo tear manual.

D’esse linho tecido se talham, aperpontam, bordam e marcam todas as camisas dos lavradores n’esta formosa região silvestre que é o Minho.

Março marçagao

Manha de inverno

E tarde de verão.

 

Ilustraçao Portugueza outubro 1913 n°398