A apanha do mexilhão


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Eu nunca vou a Marinha Grande que não atravesse o pinhal, atraído pelo mar. Cheguei la em 30 agosto e no dia seguinte’ de manha abalava ansioso por contempla-lo e ouvi-lo ao longo de muitos Km de costa da mais bela, mas também da mais tormentosa, que há em Portugal. E quedei-me no alto das rochas, cravadas com os seus gumes de basalto ao sul da praia Velha. Não se descreve, sente-se apenas, espetáculo tão sublime. Nem mesmo de inverno vi alguma vez o mão tão arrogante bravo, tão belo de iras. Na enchente de noite, a maré galgara até a lomba do areal, onde algum pé de chorão mais confiado se atrevera já a brotar. O cavername de um barco, naufragado havia tempo e que estava em seco, andou em tais bolandas que acabou de se desconjuntar. So ficaram cavilhadas a um pedaço da quilha umas cavernas da ré; tudo o mais jazia destroçado por aqui e por alem. Quem pudesse reproduzir na ‘ilustração Portugueza” uns aspetos parciais, que dessem a ideia d’aquele cenário imponente, imprevisto, impossível de colher no seu grandioso conjunto! Mas fotografar o mar debatendo-se contra os penedos e as vagas emulsionando-se espessamente pela areia?... Tudo isso seria comum e não traduziria num só das fundas impressões que eu experimentava.

 

 Volto-me para as pedras que o baixa-mar deixava a descoberto e vejo um homem a apanhar mexilhão. Momentos depois, reúne-se lhe uma mulher, nova como ele, que tornejava a aresta da rocha, que separa a Praia Velha da angra sul. Pego no Kodak e desço não sei em quanto tempo para a praia. Parecia-me que se ia dissolver um momento para o outro esse quadro inesperado, a que aquelas duas figuras franzinas, esquilibrando-se dificilmente nas asperezas das pedras contra as lufadas do norte e espreitando as vagas traiçoeiras, emprestavam un cunho especial de vida. Avancei para as pedras, e com o auxilio de um bordão aproximei-me do grupo, a torço de dois ou três escorregões sem importância na casca do mexilhão ou na pedra brunida como ela lubrificada pela maresia.

 

Os dois mal responderam aos bons dias que lhe dei. Absorvia-os a inquietação da maré que enchia e das vagas que ameaçavam lambe-los. Faziam-me dó. Pobre gente ! Que trabalho e que perigos para apanhar alguns mexilhões ! Que cancera pra não comer a broa seca!

 

Tirei alguns instantâneos e começava já a notar monotonia no quadra, quando uma vaga enorme entrou de encapelar-se, avançando rugidora para penedia. Entrevi o perigo que os ameaçava e cheguei a tremer por eles; mas o aspeto estranhamente belo e empolgante, eu o quadro ia tomando com aquela medonha serra d’agua por fundo, depressa sufocou- ai de mim! –tão vivos sentimentos de piedade.

Era a febre terrível da reportagem que se apoderava de mim, desvairando-me; era um d’esses singulares fenómenos de imaginação tão frisantemente exemplificado no caçador que vê sem pesar cair a ave com a asa quebrada e corre compadecido a lavar-lhe a ferida no ribeiro, rasgando do lenço da algibeira uma tira para lhe fazer um penso!

 

 

E a vaga desaba sobre a penedia sem que José Constantino e sua mulher, Emília Calado, tivessem tempo para fugir. A mulher resvalou para um poceirão, formado entre duas pedras, e o aflito operário vidreiro deita-lhe logo as mãos, puxando-a com força impresumivel nos seus braços delgados.

Não sei que lampejo tive de intuição em como não havia perigo, apesar da atitude desfalecida da mulher. Não corri em seu socorro- triste é te-lo de confessar! –fiquei pegado na crista do cachopo em que estava. Tinha carregado poucos minutos antes o “kodak” com um rolo de 12 exposições e pensei senão em emprega-las todas. Nunca tinha tido nem tornaria a ter uma ocasião d’aquelas! Feroz egoísmo!... So foi pena que não estivesse outra pessoa a fotografar-me também, para eu fazer ideia dos meus movimentos febris, da rapidez com que desenrolava, arrestava o “kodak” e dava a alavanca; da maneira como saltei de pedra em pedra,até a areia, focando as fases sucessivas d’aquela via dolorosa, que José Constantino percorreu arrastando a mulher inanimada.

 

Não sei descrever, nem me ficou sequer a noção de como as coisas se passaram. Mesmo em momentos de consciência, não se fazia semelhante coisa; mais- reminiscência curiosa! –naquela serie de lances de cunho intensamente dramático, nunca me abandonou a convicção de que a Maria Calado não sofrera maior mal.

 

E enquanto, ela, já vestida de enxuto bem como o marido, estavam comendo com grande apetite, ao pé da fogueira, broa com lapas e mexilhão, eu não despregava os olhos do “kodak” depois de empregar n’aquela ultima cena a ultima exposição.

 

O que teria ficado la dentro? Haveria de aproveitável alguma coisa, feita com tanta precipitação, com tanta cegueira, com tanta inconsciência?

Perderam-se alguns aspetos, talvez dos mais interessantes, uns porque ficaram sobrepostos, outros porque apanharam luz; mais ainda ficaram os suficientes para se ajuizar do drama que se ia dando do grau perigoso que pode atingir a febre da reportagem.

Hoje é que sinto o verdadeiro pavor do caso e nunca mais o perderei. José Constantino nem já o tinha no dia seguinte, pois que , a noite, ele e a mulher fora a casa levar-me um cestinho de mexilhão apanhado na Praia Velha, d’onde acabavam de regressar, e perguntaram-me se eu voltava la segunda feira. Quem dera!...

 

Autor : A.M.F.

fonte : ilustração portugueza 1913

 

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