Trajo de leiteira? Trajo de peixeira? ...

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Trajo de leiteira? Trajo de peixeira? Trajo de galinheira? trajo d'aguadeiro? trajo de pedreiro? trajo d'azeiteiro? Tanto trajo, tanta confusão! Em tempos idos os trajes de cotio, ao contrário do que muitos pensam, não eram tão diversificados como se dizem ser. O traje de cotio era semelhante para todos os que lidavam na lavoura ou aqueles que andavam apregoando de porta em porta. Muitas vezes faziam as duas coisas: os campos e a vida de negócio.

 

O trajo de trabalho era, então, composto de traços simples e grossos tecidos e modos confeccionados, sendo, por vezes, o único que tinha tal função, por isso tanta estima se via nos muitos remendos nas quadras, fundilhos e joelheiras das calças dos homens (por exemplo). A vergonha de andar remendado era alguma, porém não desonra. Para aliviar essa vergonha diziam: "arremenda teu pano qu'ele dura inté ao ano, torna arremendar qu'ele torn'a durar". Antigamente falava-se em governo da casa, agora fala-se em poupanças. E sendo a vergonha pouca ou nenhuma, naqueles tempos até o mais rico homem trazia roupa remendada, onde o brio das suas mulheres e filhas era mostrado nos remendos tão eximiamente postos na roupa.

 

No homem, o sempre chapéu, a camisa de riscado, e o terno da calça de cotim, o colete, e porventura um casaco velho, era o trajo base. Servia assim para todos. Tanto para andar nas côrtes no meio do gado como na pedreira a 'guilhar' as pedras; Servia tanto ao jornaleiro, que andava no campo, como ao azeiteiro que trazia o carro com as bilhas do azeite, o petróleo e o sabão; Servia tanto ao barbeiro que desfazia as barbas dos fregueses - nas feiras ou no quinteiro de sua casa - como ao moleiro que andava no pó da farinha. Note-se que andavam todos, quase sempre descalços, porventura algum mais remediado pudesse trazer uns socos ou tamancos no inverno, mas seria raro.

 

 

Na mulher o sempre velho lenço na cabeça - e nunca pelas costas-, acompanhado por um velho chapéu de palha ou feltro desabado, a blusa de chita ou riscado escura, a saia de chitas ou riscados escuros ou fazendas brutas, o sempre avental acompanhando toda a saia - protegendo esta de muitas adversidades - e o xaile pelas costas ou traçado, sendo o traçado mais apropriado para trabalhos que necessitam os braços disponíveis. Note-se que em muitas zonas o lenço traçado sobre o peito estava na mesma por baixo do xaile, e tirando o xaile, o primeiro ficava sempre traçado assegurando o recato da mulher. Era o que reinava no vestir das mulheres, e estas, nunca descoravam o uso de faixa para qualquer serviço quem envolvesse caminhar ou esforços, isto para atender aos cuidados com o ventre que eram sempre muitos. Com a "espinhela caída" também se preocupavam estas mulheres de labuta, e para evitar isso usavam os coletes de atilhos justos ao corpo - por dentro ou por fora- que também serviam para segurar os seios das mulheres, não os expondo e apertando-os contra os "caixilhos". Não esquecendo que qualquer mulher de negócio trazia consigo sempre a dita algibeira.

 

Sobre o traje da mulher, e não se descore o trajo de varão, há muito que se possa dizer quanto a cada peça que constitui a indumentária de trabalho. Porém pretende este texto alertar para o uso comum e transversal desta base nas roupas de cotio em qualquer género e profissão. Assim sendo, a ideia que o trajo desta ou outra arte, negócio ou lide cai sobre terra. Não se embelezando mais por ser humilde moleiro ou feitor duma grande quinta, ser leiteira ou dona de casa.

 

Temos, porém, de atender que hão gestos, e porventura atitudes, que influenciam certas peças desta 'base' que podemos considerar de indumentária de cotio em certas ocasiões e trabalhos, e que para isso devem de ser detalhadamente e especificamente estudados pois muitas vezes são casos motivados pelos recursos locais, ou outros mais específicos condicionantes. Recordam-me de momento, por exemplo, o avental de couro, estopa, cru que dependendo das artes os homens traziam a proteger a roupa.

 

Os Usos e Costumes não são assim tão complicados como as pessoas por vezes o fazem. Atitudes dos nossos dias são repercussões de atitudes tidas em outros tempos. Apenas temos de nos contextualizar e ser lógicos. Cada vez mais o Folclore necessita de disponibilidade à pesquisa e à profissionalização das recolhas e pensamento histórico e multifacetado, isto dentro dos campos da política, sociologia e religião à época. Não necessitamos ser Etnológicos, apesar que seria de muito agrado que o fossemos, mas na nossa humildade amadorística e no nosso querer saber tem espaço para constar estas todas facetas de estudo. Quando apreendidas, e só assim, compreenderemos e conseguiremos representar os nossos antigos com mais fidelidade e em moldes diferentes das actuais representações.

 

G.Raro extrato da pagina do Trajar do Povo em Portugal