O CAPOTE (TRAJE)

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O peculiar Capote-e-Capelo consiste numa grande capa, que cobria a figura de uma mulher, permitindo apenas um vislumbre do seu rosto. A origem do Capote-e-Capelo é controversa. Alguns dizem que veio da Flandres enquanto outros afirmam que é uma adaptação de mantos e capuchos que estavam na moda em Portugal nos séculos XVII e XVIII. Durante muito tempo, o Capote-e-Capelo, foi o traje tradicional da mulher Açoreana, também este usado no Faial. Esta configuração variava de ilha para ilha, no corte da capa e no arranjo do capote. O do Faial tinha a forma extravagante de uma cunha sobre os ombros e que se projectava em frente por mais de um palmo. A característica comum de todas as variantes do Capote-e-Capelo, é que era feito de um forte tecido grosso azul-eléctrico, que durou por gerações e foi passada de mães para filhas. As mulheres dos Açores deixaram de usar este traje por volta da década de 30, do século passado.À semelhança de outras regiões também a mulher açoriana usava como agasalho capotes com capelo, diferindo o seu feitio de ilha para ilha. Leite de Vasconcelos visitou os Açores no Verão de 1924 ainda testemunhou o uso de mantos e capotes pelas mulheres da ilha Terceira e do Faial. Com efeito até meados do século XX era frequente encontrar nos meios citadinos mulheres envoltas no seu capote preto e capelo armado.
Convém distinguir o manto do capote: o primeiro é uma saia comprida e rodada de cor preta, o segundo, afigura-se como uma capa muito ampla, mais farta lateralmente que nas costas. No caso da utilização do manto, o capelo era armado com cartão e atado pela cintura, a mulher segurava-o com as mãos de modo a encobrir o rosto. Com o capote, o capelo era utilizado sobre os ombros. Neste caso, estamos perante um amplo capuz suportado por um arco de osso de baleia, sendo a sua rigidez conferida pelo forro de cânhamo.Estamos assim perante três trajes, que para além da sua função de abafo, remete o papel da mulher para a total exclusão da sociedade, uma vez que, completamente coberta jamais alguém descobriria a sua identidade. Dos três trajes similares existentes no continente, apenas o dos Açores é ainda hoje identificado pelo público em geral, já que se tornou num símbolo dessa região e é amplamente divulgado pelos ranchos folclóricos. Quanto aos restantes, correm o risco de caírem no esquecimento e no ostracismo, já que não sendo bonitos ou ricos, não são mostrados pelos grupos das suas regiões de origem.
Raul Brandão, em 1926, escreveu: "O que dá um grande carácter a esta terra é o capote. A gente segue pelas ruas desertas e, de quando em quando, irrompe duma porta um fantasma negro e disforme, de grande capuz pela cabeça (...). Começo a achar interesse a este fantástico negrume e resolvo que devia ser o único traje permitido às mulheres açorianas. À saída da missa gosto de ver a fila de penitentes que se escoa pelas ruas... (...) Envolve todo o corpo, e, puxando o capuz para a frente, ninguém a conhece. O que uma mulher que use o capote precisa é de andar muito bem calçada, porque tapada, defendida e inexpugnável, só pelos pés se distingue; pelo sapato e pela meia é que se sabe se é bonita a mulher que vai no capote. O capote herda-se, deixa-se em testamento e passa de mães para filhas. O capote numa casa serve às vezes para toda a família. Mulher que precisa de ir à rua de repente, pega nele e sai como está. - Este já foi da minha avó - diz-me uma rapariga. - Era dum pano inglês escuro, dum pano magnífico que dura vidas". (in "A Ilha Azul" in As Ilhas Desconhecidas, 1926).

 

 

Fonte : Trajar do Povo em Portugal : https://goo.gl/syv0PE